Desde o dia 3 de maio, quando
a Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou a morte de três pessoas a bordo
do cruzeiro MV Hondius, o hantavírus entrou no radar global. As buscas sobre a
doença dispararam nos últimos dias, impulsionadas inclusive pelo receio de uma
nova pandemia. Até agora, autoridades sanitárias confirmaram ao menos sete
casos ligados à embarcação, enquanto outros seguem em investigação.
O episódio mobilizou uma
operação internacional incomum. Após os primeiros casos suspeitos e a
confirmação das mortes, o Hondius passou dias circulando sem autorização
imediata para atracar. Nesse meio-tempo, diferentes países começaram a
organizar operações próprias para repatriar passageiros, combinando evacuações
e monitoramento sanitário. O fim do desembarque está previsto para essa
segunda-feira, 11.
A saga incluiu cenas que
lembraram os primeiros meses da covid-19: passageiros deixando o navio em pequenos
grupos, usando trajes de proteção azuis, e sendo levados em ônibus adaptados,
com barreiras físicas separando motoristas e viajantes.
Também houve espaço para uma
operação militar de quase 10 mil quilômetros, com médicos e paraquedistas
mobilizados para alcançar um passageiro que havia descido no caminho em Tristão
da Cunha, território britânico conhecido por abrigar uma das comunidades mais
isoladas do mundo, com cerca de 200 moradores.
Hantavírus: Paraná confirma
dois casos e autoridades reforçam que doença já circulava no Brasil
O vírus que veio dos Andes: a
origem do surto de hantavírus e os riscos para o Brasil
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Tudo isso – querendo ou não –
desperta receios, inclusive depois da pandemia de covid-19. Mas afinal, o que é
o hantavírus, como ele é transmitido e qual é o risco real de disseminação?
Abaixo, tire as principais dúvidas sobre a doença.
O que é o hantavírus?
O hantavírus é um grupo de
vírus transmitidos principalmente por roedores silvestres infectados. O contato
com urina, fezes e saliva desses animais, especialmente em locais fechados e
pouco ventilados, é a principal forma de infecção em humanos.
Como ocorre a transmissão?
Na maioria dos casos, a
infecção acontece após o contato com urina, fezes ou saliva de roedores
infectados. O cenário mais comum é quando essas secreções secam no ambiente e
pequenas partículas contaminadas acabam sendo espalhadas no ar – por exemplo,
ao varrer ou limpar locais fechados e pouco ventilados, como galpões,
depósitos, sótãos, cabanas ou casas que ficaram muito tempo sem uso.
A transmissão também pode
ocorrer ao tocar materiais contaminados e depois levar a mão aos olhos, nariz
ou boca, além de casos mais raros envolvendo mordidas de roedores ou alimentos
contaminados.
O hantavírus passa de pessoa
para pessoa?
Na maior parte das variantes,
não. Porém, existe uma exceção: a chamada “cepa dos Andes”, identificada
principalmente na Argentina e no Chile. Estudos sugerem que ela pode ser
transmitida entre pessoas em situações de contato próximo e prolongado. No caso
do MV Hondius, autoridades investigam justamente a possibilidade de os casos
estarem relacionados a essa variante.
O hantavírus é um vírus
‘novo’?
Embora tenha ganhado
evidência agora, o hantavírus não é uma doença nova. No Brasil, por exemplo, já
foram confirmados sete casos em 2026. Já em 2025, houve cerca de 40 registros
da doença. O ponto é que todos os casos estão relacionados ao tipo de
contaminação mais comum, que envolve a inalação de aerossóis formados a partir
de excreções de roedores.
O que chama atenção no
episódio atual é a possível circulação da cepa andina, considerada rara e
associada à transmissão entre pessoas. Além disso, o fato de o surto envolver
um cruzeiro internacional – e toda a operação de monitoramento e repatriação ao
redor dele – contribuiu para ampliar a repercussão do caso.
Quais são os sintomas?
Os sintomas iniciais costumam
se parecer bastante com os de uma gripe forte:
Febre repentina
Dor de cabeça
Dores musculares
Fadiga
Calafrios
Náusea, vômito ou diarreia
Depois de alguns dias, alguns
pacientes podem evoluir para sintomas mais graves, principalmente
respiratórios, como tosse, falta de ar e dificuldade respiratória. Em outras
variantes, o vírus pode atingir os rins e causar insuficiência renal,
sangramentos e queda importante da pressão.
Os sintomas costumam surgir
entre uma e seis semanas após a exposição ao vírus.
A doença é grave?
Pode ser. A síndrome pulmonar
por hantavírus, registrada nas Américas, tem alta taxa de mortalidade nos casos
graves. Estudos apontam que cerca de um terço dos pacientes que desenvolvem
comprometimento respiratório importante morre.
Já a febre hemorrágica com
síndrome renal, mais comum na Europa e na Ásia, também pode provocar
complicações severas, incluindo choque circulatório e insuficiência renal.
No caso do MV Hondius, as
autoridades ainda não divulgaram detalhes sobre o que exatamente levou à morte
dos passageiros a bordo.
Existe tratamento?
Não existem vacinas nem
medicamentos específicos para o hantavírus. O tratamento costuma ser feito com
suporte médico intensivo.
Nos casos pulmonares,
pacientes podem precisar de oxigênio, ventilação mecânica e até Oxigenação por
Membrana Extracorpórea (ECMO), técnica usada para oxigenar o sangue fora do
corpo.
Quando há comprometimento
renal, alguns pacientes precisam de diálise.
Existe risco de uma nova
pandemia?
A OMS fez questão de afastar
comparações com a covid-19 e afirmou que o risco epidêmico global segue baixo.
“Não é o começo de uma
pandemia”, disse Maria Van Kerkhove, responsável pela área de prevenção e
preparação para epidemias e pandemias da OMS, na primeira coletiva da agência
após o início da crise no MV Hondius.
O principal ponto destacado
pelos especialistas é que a forma de transmissão do hantavírus continua muito
diferente da observada no coronavírus. Na maior parte dos casos, a infecção
acontece a partir do contato com excreções de roedores infectados e não pela
uma circulação entre humanos.
Mesmo no caso da cepa dos
Andes, os registros indicam um contágio mais limitado, geralmente ligado a
contatos próximos e prolongados./veja