Teixeira de Freitas: A morte precoce de Milena dos Santos Martins, de apenas 19 anos, não é apenas um dado estatístico na saúde pública de Teixeira de Freitas: é uma ferida aberta que expõe o desespero de uma família e levanta graves questionamentos sobre o atendimento prestado pela rede municipal.
Milena faleceu no dia 2 de setembro, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Municipal de Teixeira de Freitas (HMTF). Segundo o relato de sua mãe, Luciana Mendes, a jovem deu entrada na UPA sentindo dores abdominais, falta de ar e sangramentos. Mesmo com histórico de alergias a determinados medicamentos — alerta feito pela família aos profissionais —, Milena foi medicada e liberada. Ao retornar para casa, seu estado clínico piorou drasticamente: a jovem começou a expelir sangue pela boca e apresentou manchas vermelhas e reações pelo corpo, sugerindo uma grave intoxicação ou reação alérgica à medicação ministrada.
Em um desabafo emocionante e desesperado concedido ao Liberdade News, a mãe expressou toda a sua dor e indignação com o atendimento recebido:
“Eu estou implorando a vocês! Ninguém sabe o que eu estou passando... A minha filha estava sentindo dor na barriga, falta de ar e sangramento. A gente levou ela pra UPA, eles passaram medicamento e ela voltou para casa.”
“Quando ela chegou em casa de manhã, já chegou saindo muito sangue da boca pra fora, pedaços de sangue. Quando a gente foi tirar a roupa dela, o corpo dela estava todo empolado, todo vermelho, como se estivesse intoxicada.”
“Tem lógica uma pessoa entrar dentro de uma UPA sentindo dor e sair de lá dentro de um caixão? Não tem lógica! Eu sei que isso não vai trazer minha filha de volta, mas eu quero justiça!”
“Eles mataram a minha filha e o bebê. Tiraram duas vidas, a dela e a de um bebê que estava dentro dela! [...] Hoje sou eu que estou chorando, amanhã ou depois pode ser outra mãe e outro pai chorando a perda de um filho por falta de responsabilidade aí de dentro!”
“Pelo amor de Deus, se chegar uma pessoa passando mal, faz um teste de gravidez! A minha filha pediu exame de urina e o exame não mostrou que ela estava grávida. Se tivessem feito o teste correto, hoje não estaria nessa situação.”
A necropsia apontou a causa da morte como indeterminada, com indícios de coagulação intravascular disseminada (CIVD) e lesões compatíveis com intervenções médicas, dependendo de exames toxicológicos e complementares para a conclusão oficial. A suspeita levantada pela mãe refere-se ao possível choque anafilático ou envenenamento por medicação inadequada devido às alergias conhecidas da jovem.
Histórico de negligência: O caso Wemerson Evangelista
A tragédia de Milena não é um caso isolado. A gestão do Instituto SETES e da saúde municipal já carrega marcas de denúncias anteriores que permanecem sem respostas convincentes.
Em abril, o jovem Wemerson Lima Evangelista, de 22 anos, perdeu a vida após dar entrada no hospital apenas para realizar uma cirurgia eletiva de correção de fratura na mão. Segundo familiares, Wemerson estava consciente e saudável quando uma medicação — que deveria ter sido diluída em soro — foi aplicada diretamente em sua veia de forma equivocada. O jovem sofreu dor de cabeça intensa, paradas cardíacas e faleceu em questão de minutos. Na época, informações de bastidores apontavam o desligamento de uma profissional de enfermagem, mas a direção do hospital e o Instituto SETES mantiveram o silêncio diante dos questionamentos da imprensa e da população.
Cobrança por transparência
Diante da repercussão, o Instituto SETES divulgou nota de repúdio classificando as acusações como "campanha difamatória". No entanto, a população e a imprensa cobram mais do que notas formais: exigem a apresentação clara do prontuário médico, do histórico de medicamentos ministrados e do fluxo de atendimento de Milena e de outras vítimas.
O jornalismo não cria narrativas; dá voz a mães que enterraram seus filhos e cobra esclarecimentos das autoridades responsáveis. O caso segue sob investigação na 8ª COORPIN de Teixeira de Freitas, enquanto a comunidade aguarda respostas definitivas para que outras vidas não sejam ceifadas na rede de saúde pública./Liberdadenews