Manoel Carlos Gonçalves de Almeida, apelidado carinhosamente de Maneco, nasceu em São Paulo em 1933. Filho de um comerciante e de uma professora, construiu uma carreira marcada por personagens femininas fortes, enredos familiares e a ambientação quase obrigatória no bairro do Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro.
Manoel Carlos começou cedo na comunicação, trabalhando como radialista e ator antes de se encontrar como roteirista. Em 1972, estreou na Globo como diretor-geral do ‘Fantástico’ e, em 1978, escreveu sua primeira novela na emissora, ‘Maria, Maria’. Foi a partir dos anos 1990 que consolidou um estilo próprio, conhecido como "realismo afetivo", ao apostar em diálogos coloquiais e tramas centradas em dramas cotidianos, especialmente entre pais e filhos e marido e mulher.
Uma das suas principais marcas é a criação das “Helenas”, protagonistas de muitas de suas histórias. A primeira surgiu em “Baila Comigo” (1981), interpretada por Lilian Lemmertz. Ao todo, nove novelas de Maneco contaram com protagonistas batizadas como Helena, incluindo sucessos como “Por Amor” (1997), vivida por Regina Duarte, “Laços de Família” (2002), personagem icônica de Vera Fischer, e “Mulheres Apaixonadas” (2003), protagonizada por Cristiane Torloni.
No documentário 'Tributo - Manoel Carlos', original Globoplay, ele conta que a inspiração para a personagem veio da mitologia grega.
"As pessoas dizem assim, foi sua mãe, uma irmã, uma namorada, uma primeira mulher? Nada disso. Helena é apenas um nome que eu acho mais apropriado a um personagem do que uma pessoa real. Talvez porque eu também sempre gostei de mitologia.
A Helena mitológica é
fantástica. É aquela história toda da Helena de Troia ter sido uma mulher
raptada, casada com um raptor, divorciada e voltou a viver com o marido depois
de separar-se dele. Tudo isso tem uma coisa, uma magia muito interessante que
me cativou muito", explicou.
Um homem de muitas Helenas, Manoel Carlos repetiu com gosto uma atriz nas suas novelas: Lilia Cabral.
Apesar disso, ela nunca interpretou uma Helena. No mesmo documentário, Lilia se emocionou ao ler a justificativa do autor: para ele, Cabral era a antagonista perfeita.
"As pessoas muitas vezes me perguntam por que ela nunca fez a Helena. Porque ela, pra mim, ela é a antagonista ideal. Se eu boto ela de Helena, quem é a antagonista da Lilia Cabral? É difícil, você entende? Ela é muito boa antagonista. Ela é a que combate a heroína, a rival da heroína. Ela nunca foi vilã. Ela tinha razões pra ser do jeito que ela era. Então, é difícil dar uma protagonista pra ela, por causa disso. Então, nas minhas novelas, todas elas, ela fez quase todas e sempre se destaca".
Manoel Carlos é lembrado por retratar temas sociais, como alcoolismo, violência doméstica, abandono de idosos e desigualdade. Um exemplo foi a campanha de doação de medula óssea que se espalhou pelo Brasil após o drama da personagem Camila, interpretada por Carolina Dieckmann, em “Laços de Família”.
As novelas de Manoel Carlos ensinaram o Brasil a lidar com dores invisibilizadas. Em 2006, Páginas da Vida exibiu a história de uma menina com Síndrome de Down. Já Viver a Vida, em 2009, tratou sobre tetraplegia. Em entrevista à Rádio Globo, em 2010, o autor pontuou que a novela mudou olhares e gerou mobilização para leis no país.
"Nunca se viu tanta gente bem realizada, mesmo em cima de uma cadeira de rodas. As manifestações são muito grandes, tal como aconteceu em Páginas da Vida com a menina que tinha síndrome de Down. Hoje você vê as pessoas reivindicando mais leis que estão sendo feitas para obrigar o rebaixamento de calçadas, o rebaixamento de entradas em cinema, teatro e restaurantes. Então, hoje em dia, uma novela no ar durante oito meses, nove meses, você vê muito resultado nisso. Conseguiu-se coisas muito boas com relação a isso e esse foi o objetivo fundamental", pontuou.
Manoel Carlos também esteve envolvido em polêmicas. Foi acusado por parte da crítica de escrever novelas “elitizadas”, por retratar majoritariamente a zona sul carioca e classes mais altas.
No entanto, suas tramas costumavam liderar a audiência no horário nobre da Globo. “Por Amor”, por exemplo, alcançou quase 50 pontos no Ibope em sua reta final. Já “Laços de Família” e “Mulheres Apaixonadas” foram fenômenos não apenas no Brasil, mas também em países da América Latina e Europa.
Ao longo da carreira, Manoel Carlos escreveu mais de 20 novelas e minisséries. Além de "Baila Comigo" (1981), “Por Amor” (1997), “Laços de Família” (2000) e “Mulheres Apaixonadas” (2003), foi autor de obras marcantes como “Felicidade” (1991), “História de Amor” (1995), “Páginas da Vida” (2006), “Viver a Vida” (2009), e “Em Família” (2014) – sua última novela.
Além das novelas, escreveu minisséries, como “Presença de Anita” (2001), outro grande sucesso, marcada pela sensualidade da personagem-título interpretada por Mel Lisboa.
Em 2009, à Rádio Globo, Manoel Carlos se mostrou um otimista inabalável. Para ele, não existe beco sem saída e é preciso lutar pela felicidade.
"Não existe beco sem saída. A gente tem que arrumar uma saída para continuar vivendo da melhor maneira possível. E não permitir que nada sabote a felicidade da gente. A gente nasce para ser feliz, então tem que lutar para ser feliz", afirmou.
Nos últimos anos, longe da televisão por conta de complicações da Doença de Parkinson, Manoel Carlos viveu uma vida reclusa no Rio de Janeiro ao lado de familiares e amigos mais próximos./globo