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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Fundação de Dois de Abril: documentos históricos revelam origem da povoação em 1915

 



FUNDAÇÃO DE DOUS DE ABRIL

Por Wilton Soares dos Santos

Li certa vez na obra "Lembranças da Terra - Histórias do Mucuri e Jequitinhonha", organizada pelo economista e historiador social Eduardo Magalhães Ribeiro, que os colonos do baixo Jequitinhonha, em sua maioria, “possuíam somente machado, isqueiro, coragem e necessidade. Eram em geral jovens, filhos que sobravam numa terra familiar repartida e esgotada que empurrava a juventude para a floresta, para a abundância e aventura. Iam para a mata também os libertos do cativeiro, procurando terras sem donos. Quase sempre eram estes os que saíam”.

Dito isso, é possível afirmar a existência de fontes confiáveis e de uma literatura que nos permite argumentar com alguma precisão como e quando foi o começo das povoações de Dois de Abril e Santo Antonio do Ariary - Palmópolis - quase ao mesmo tempo.

É bom que se diga de antemão que o povoamento de Dois de Abril não se deu de uma única vez, mas em ondas migratórias de levas de lavradores pobres, ora fugindo das secas da Bahia ora da deteorização das condições de trabalho enfrentadas em suas próprias localidades de origem.

Em outra literatura de autoria do Frei holandês, Samuel Tetteroo OFM, "Memória histórica e geográfica do município de Jequitinhonha", de 1919, a primeira estrada ou picada aberta à margem direita do Prado Grande (Rio Jucuruçu) foi feita pelo engenheiro francês de nome Apollonario Frot, encarregado pela Intendência da cidade do Prado (BA), auxiliado pela Câmara Municipal de Araçuaí (MG). Para essa tarefa, serviu-se de indígenas que habitavam nas cabeceiras do rio do Prado, o denominado Córrego dos Caboclos — hoje córrego Dois de Abril —, além de outros de Itanhém, o Corririco, da cabeceira do ribeirão das Imburanas.

A par dessa literatura, fiquei imaginando esses trabalhadores indígenas abrindo picadas onde atualmente chamaríamos de Rua Fortunato Pereira. Fechei os olhos e passou um filme em minha cabeça de que em frente minha casa de número 45 havia uma imensa floresta povoada por povos originários. Pois é, isto ocorreu entre os anos 1893 e 1900, quando o Doutor Frot, moço esbelto, convivia com os aborígenes.

Isso não significa dizer que Dois de Abril ou Palmópolis foram fundados nestas datas, até porque estaríamos no início do período republicano e de quando se transfere a capital de Minas Gerais de Ouro Preto para a recém-criada cidade de Belo Horizonte, por aquela não comportar o crescimento econômico e populacional do estado. Portanto, é preciso desmitificar essa ideia de que Dois de Abril antecede à República e dar, de uma vez por todas, uma data de criação da povoação.

Somente por volta de 1914 essa antiga picada foi reaberta por moradores das cabeceiras do Rubim do Sul, principalmente do Córrego do Barracão, quando começou a povoar-se a bacia do alto rio Jucuruçu. Neste contexto é que se insere o começo do povoamento de Dois de Abril e Palmópolis.

“Entre 1912 e 1915 [...] já se acham à margem direita do Jucuruçu duas povoações em começo: as de Santo Antonio de Ariary e a de ‘Dois de Abril’. Nesta última foi creada pelo Governo de Minas Geraes um Posto de Vigia para arrecadação de direitos estadoaes e pelo Municipal uma escola” (Tetteroo, 1919).

É de se admirar a capacidade do frei Tetteroo, lá no início do século XX, de previsibilidade e de demandas por infraestruturas antes mesmo dessa região ser tomada pela pecuária, há mais de cem anos:

“[...] estes rios são encachoeirados e empedrados não se offerecem como vias de exportação. Que antes de enraizar nos seus férteis terrenos ‘o mal de capim’ o bom e trabalhoso povo veja-se provido quanto antes de boas estradas com pontes e pontilhões”.

Carentes, portanto, dessas infraestruturas:

“Não vendo meios para levar os seus mantimento à alguma feira, devem contentar-se com empastar os ‘seus logares’, razão porque também por lá infelismente grassa largamente ‘o mal de colonião’”.

Segundo o Frei Tetteroo (1919), o senhor Antonio José da Silva, com intuito de fazer um arraial, comprou no mês de março de 1915, por quatrocentos réis e tantos, uma abertura que Manoel Antonio tinha feito à margem do Prado, pouco acima da barra do córrego Bananeira.

Já o senhor Sesnando começou “com pouca diferença de tempo”, e aqui eu quero acreditar que foi no dia 2 de abril de 1915, a povoação de “Dous de Abril”, situada na confluência do “Córrego dos Caboclos” ou “Dous de Abril” com o Prado Grande (rio Jucuruçu), “mais ou menos oito léguas abaixo da povoação do Ariary, ficando perto já da cachoeira de Meia Légua”.

Enfim, diante de fontes confiáveis, podemos afirmar com razoável segurança e, até que se apresente contraprova, os iniciadores de Santo Antonio de Ariary (Palmópolis) e de Dous de Abril, ambas situadas à margem direita do rio do Prado ou Jucuruçu, foram, respectivamente, os senhores Antonio José da Silva (José de Umbelina) e Sesnando Grampiuna.

Devemos considerar como de grande importância que o povoamento de Dois de Abril muito se deve ao pioneirismo das famílias de Antonio Ferreira da Cruz e dona Felícia Maria Gonçalves, e de seus genros Boaventura Prado e Fortunato Pereira, que chegaram no início do século XX, armaram acampamento às margens do Córrego dos Caboclos — que depois veio a se chamar Córrego Dois de Abril —, e ali fizeram roças de milho, mandioca, feijão e arroz.

Família de 9 filhos, em que se destaca Modesta Ferreira da Cruz e a irmã mais velha Ana Maria de Jesus, conhecida por Sinhana. Ambas eram parteiras. Esta última era casada com Boaventura Prado, com quem também teve 9 filhos, entre eles Joaquim Pereira Prado.

Não há dúvida quanto ao pioneirismo dos Ferreira Cruz e dos Prado, como também não se pode negar a coragem e bravura dos pioneiros que vieram depois, como os Ladislau, entre outros, em busca de terras férteis e sem donos, outrora ricas em perobas, jacarandás, sucupiras e jatobás, razão pela qual trouxe para cá madeireiros.

“Quantos veados, pacas, cotias e capivaras saciaram a fome desses desbravadores”, disse-me, certa vez, o senhor Joaquim (Gonçalves) de Lau, falecido aos 104 anos no ano de 2024.

Disse-me ainda que as posses eram abertas a punho de facão e as sementes, incluindo o colonião, trazidas em cargas nos lombos de mulas das então distantes São Miguel do Jequitinhonha e Joaima.

“Não havia estradas, não havia nada”, confirmando a assertiva do Frei Tetteroo.


Nota histórica:


O distrito de Dois de Abril foi criado pela lei estadual nº 2.764, de 30 de dezembro de 1962, então pertencente a Rio do Prado. Pela lei estadual nº 10.704, de 27 de abril de 1992, passou a pertencer a Palmópolis, após a emancipação deste município.

Por/ Por Wilton Soares dos Santos

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Rua principal de Jucuruçu - Bahia, 3 de março de 2024.

Jucuruçu - Bahia. Pedaço bom do Brasil.