FUNDAÇÃO DE DOUS DE ABRIL
Por Wilton Soares dos Santos
Li certa vez na
obra "Lembranças da Terra - Histórias do
Mucuri e Jequitinhonha", organizada pelo economista e historiador
social Eduardo Magalhães Ribeiro, que os colonos do baixo Jequitinhonha, em sua
maioria, “possuíam somente machado, isqueiro, coragem e necessidade. Eram em
geral jovens, filhos que sobravam numa terra familiar repartida e esgotada que
empurrava a juventude para a floresta, para a abundância e aventura. Iam para a
mata também os libertos do cativeiro, procurando terras sem donos. Quase sempre
eram estes os que saíam”.
Dito isso, é
possível afirmar a existência de fontes confiáveis e de uma literatura que nos
permite argumentar com alguma precisão como e quando foi o começo das povoações
de Dois de Abril e Santo Antonio do Ariary - Palmópolis - quase ao mesmo tempo.
É bom que se
diga de antemão que o povoamento de Dois de Abril não se deu de uma única vez,
mas em ondas migratórias de levas de lavradores pobres, ora fugindo das secas
da Bahia ora da deteorização das condições de trabalho enfrentadas em suas
próprias localidades de origem.
Em outra
literatura de autoria do Frei holandês, Samuel Tetteroo OFM, "Memória histórica e geográfica do município
de Jequitinhonha", de 1919, a primeira estrada ou picada aberta à
margem direita do Prado Grande (Rio Jucuruçu) foi feita pelo engenheiro francês
de nome Apollonario Frot, encarregado pela Intendência da cidade do Prado (BA),
auxiliado pela Câmara Municipal de Araçuaí (MG). Para essa tarefa, serviu-se de
indígenas que habitavam nas cabeceiras do rio do Prado, o denominado Córrego
dos Caboclos — hoje córrego Dois de Abril —, além de outros de Itanhém, o
Corririco, da cabeceira do ribeirão das Imburanas.
A par dessa
literatura, fiquei imaginando esses trabalhadores indígenas abrindo picadas
onde atualmente chamaríamos de Rua Fortunato Pereira. Fechei os olhos e passou
um filme em minha cabeça de que em frente minha casa de número 45 havia uma
imensa floresta povoada por povos originários. Pois é, isto ocorreu entre os
anos 1893 e 1900, quando o Doutor Frot, moço esbelto, convivia com os
aborígenes.
Isso não
significa dizer que Dois de Abril ou Palmópolis foram fundados nestas datas,
até porque estaríamos no início do período republicano e de quando se transfere
a capital de Minas Gerais de Ouro Preto para a recém-criada cidade de Belo
Horizonte, por aquela não comportar o crescimento econômico e populacional do
estado. Portanto, é preciso desmitificar essa ideia de que Dois de Abril
antecede à República e dar, de uma vez por todas, uma data de criação da
povoação.
Somente por
volta de 1914 essa antiga picada foi reaberta por moradores das cabeceiras do
Rubim do Sul, principalmente do Córrego do Barracão, quando começou a povoar-se
a bacia do alto rio Jucuruçu. Neste contexto é que se insere o começo do
povoamento de Dois de Abril e Palmópolis.
“Entre 1912 e
1915 [...] já se acham à margem direita do Jucuruçu duas povoações em começo:
as de Santo Antonio de Ariary e a de ‘Dois de Abril’. Nesta última foi creada
pelo Governo de Minas Geraes um Posto de Vigia para arrecadação de direitos
estadoaes e pelo Municipal uma escola” (Tetteroo, 1919).
É de se admirar
a capacidade do frei Tetteroo, lá no início do século XX, de previsibilidade e
de demandas por infraestruturas antes mesmo dessa região ser tomada pela
pecuária, há mais de cem anos:
“[...] estes
rios são encachoeirados e empedrados não se offerecem como vias de exportação.
Que antes de enraizar nos seus férteis terrenos ‘o mal de capim’ o bom e
trabalhoso povo veja-se provido quanto antes de boas estradas com pontes e
pontilhões”.
Carentes,
portanto, dessas infraestruturas:
“Não vendo
meios para levar os seus mantimento à alguma feira, devem contentar-se com
empastar os ‘seus logares’, razão porque também por lá infelismente grassa
largamente ‘o mal de colonião’”.
Segundo o Frei
Tetteroo (1919), o senhor Antonio José da Silva, com intuito de fazer um
arraial, comprou no mês de março de 1915, por quatrocentos réis e tantos, uma
abertura que Manoel Antonio tinha feito à margem do Prado, pouco acima da barra
do córrego Bananeira.
Já o senhor
Sesnando começou “com pouca diferença de tempo”, e aqui eu quero acreditar que
foi no dia 2 de abril de 1915, a povoação de “Dous de Abril”, situada na
confluência do “Córrego dos Caboclos” ou “Dous de Abril” com o Prado Grande
(rio Jucuruçu), “mais ou menos oito léguas abaixo da povoação do Ariary,
ficando perto já da cachoeira de Meia Légua”.
Enfim, diante
de fontes confiáveis, podemos afirmar com razoável segurança e, até que se
apresente contraprova, os iniciadores de Santo Antonio de Ariary (Palmópolis) e
de Dous de Abril, ambas situadas à margem direita do rio do Prado ou Jucuruçu,
foram, respectivamente, os senhores Antonio José da Silva (José de Umbelina) e
Sesnando Grampiuna.
Devemos
considerar como de grande importância que o povoamento de Dois de Abril muito
se deve ao pioneirismo das famílias de Antonio Ferreira da Cruz e dona Felícia
Maria Gonçalves, e de seus genros Boaventura Prado e Fortunato Pereira, que
chegaram no início do século XX, armaram acampamento às margens do Córrego dos
Caboclos — que depois veio a se chamar Córrego Dois de Abril —, e ali fizeram
roças de milho, mandioca, feijão e arroz.
Família de 9
filhos, em que se destaca Modesta Ferreira da Cruz e a irmã mais velha Ana
Maria de Jesus, conhecida por Sinhana. Ambas eram parteiras. Esta última era
casada com Boaventura Prado, com quem também teve 9 filhos, entre eles Joaquim
Pereira Prado.
Não há dúvida
quanto ao pioneirismo dos Ferreira Cruz e dos Prado, como também não se pode
negar a coragem e bravura dos pioneiros que vieram depois, como os Ladislau,
entre outros, em busca de terras férteis e sem donos, outrora ricas em perobas,
jacarandás, sucupiras e jatobás, razão pela qual trouxe para cá madeireiros.
“Quantos
veados, pacas, cotias e capivaras saciaram a fome desses desbravadores”,
disse-me, certa vez, o senhor Joaquim (Gonçalves) de Lau, falecido aos 104 anos
no ano de 2024.
Disse-me ainda
que as posses eram abertas a punho de facão e as sementes, incluindo o
colonião, trazidas em cargas nos lombos de mulas das então distantes São Miguel
do Jequitinhonha e Joaima.
“Não havia estradas,
não havia nada”, confirmando a assertiva do Frei Tetteroo.
Nota histórica:
O distrito de Dois de Abril foi criado pela lei estadual nº 2.764, de 30 de
dezembro de 1962, então pertencente a Rio do Prado. Pela lei estadual nº
10.704, de 27 de abril de 1992, passou a pertencer a Palmópolis, após a
emancipação deste município.
Por/ Por Wilton Soares dos Santos
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