A dimensão desse número pode
ser compreendida também por uma conversão aproximada para períodos menores.
Considerando os 3,7 milhões de casos distribuídos uniformemente ao longo de um
ano, chega-se a cerca de 10,1 mil mulheres por dia, 422 por hora e sete por
minuto. A conta é uma forma de dimensionar a magnitude do dado, e não significa
que os episódios ocorram de maneira uniforme a cada minuto.
O levantamento do DataSenado
ouviu 21.641 mulheres com 16 anos ou mais, em todas as unidades da Federação. A
pesquisa apontou que 4% das brasileiras nessa faixa etária declararam ter
sofrido violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores, percentual
menor que os 7% registrados em 2023. Mesmo com a redução, o número absoluto
estimado continua representando milhões de mulheres.
Em entrevista ao jornalista
Luiz Oss, a advogada Gabriella Comper, presidente da Comissão de Defesa da
Mulher, chama atenção justamente para a necessidade de transformar as
estatísticas em compreensão sobre a dimensão do problema.
“Quando falamos em milhões de
vítimas, às vezes não conseguimos dimensionar o tamanho dessa realidade. Mas
quando percebemos que, a cada minuto, aproximadamente sete mulheres podem estar
sofrendo algum tipo de violência doméstica ou familiar, entendemos que estamos
diante de um problema gravíssimo”, afirma Gabriella.
Violência muitas vezes
acontece diante de crianças
Outro dado revelado pela
pesquisa mostra que a violência doméstica não permanece necessariamente
restrita ao ambiente privado. Entre as mulheres que relataram ter sofrido
violência nos últimos 12 meses, 71% afirmaram que havia outras pessoas
presentes durante a agressão. Em grande parte dessas situações, as testemunhas
eram crianças.
A pesquisa também aponta que
a violência pode se tornar recorrente. Quase seis em cada dez vítimas relataram
que os episódios aconteciam havia menos de seis meses, enquanto 21% conviviam
com situações de violência há mais de um ano.
Os dados mostram ainda que
existe uma diferença entre a violência vivenciada e a forma como ela é
reconhecida pelas próprias vítimas. Segundo o levantamento, 33% das
entrevistadas relataram ter vivenciado pelo menos uma das 13 formas de
violência investigadas, embora parte delas não se identifique como vítima
quando questionada diretamente.
Violência não se resume à
agressão físicaPara Gabriella Comper, um dos
pontos fundamentais no enfrentamento do problema é ampliar a compreensão sobre
o que caracteriza a violência contra a mulher.
A Lei Maria da Penha
estabelece diferentes formas de violência doméstica e familiar, entre elas a
física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Isso significa que
comportamentos como ameaças, humilhações, controle, constrangimentos e retenção
ou destruição de bens também podem integrar o ciclo de violência.
“É importante que as mulheres
reconheçam os diferentes tipos de violência. Muitas vezes, a violência
psicológica, o controle, a humilhação, a ameaça e a violência patrimonial são
naturalizados, mas também fazem parte desse ciclo de violência”, explica a
advogada.
A informação, nesse contexto,
torna-se uma ferramenta importante para que a vítima consiga identificar
situações abusivas e tenha condições de procurar orientação e apoio.
Feminicídio representa a face
mais extrema da violência
Quando a violência chega ao
extremo, o resultado pode ser o assassinato de mulheres por razões relacionadas
ao gênero. Dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública
(Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, apontam que o Brasil
registrou 1.470 feminicídios em 2025, uma média de aproximadamente quatro
mulheres mortas por dia. O número representou o maior registro da série
histórica disponível até então.
O dado evidencia que a
violência letal continua sendo uma realidade grave no país. Os números também
precisam ser observados em conjunto com as demais formas de violência, já que o
feminicídio pode ocorrer dentro de contextos marcados por agressões, ameaças,
perseguições, controle e outras formas de abuso.
“Os números de feminicídio
também são extremamente preocupantes. Estamos falando de 1.470 mulheres
assassinadas em 2025. São aproximadamente quatro mulheres mortas por dia em
razão de uma violência que, muitas vezes, acontece dentro de uma relação de
proximidade e confiança”, destaca Gabriella.
Agosto Lilás reforça uma
responsabilidade que deve durar o ano inteiro
O Agosto Lilás tem papel
importante ao ampliar a discussão pública sobre a violência contra a mulher e
estimular ações de prevenção e enfrentamento. No entanto, especialistas e
instituições que atuam na área defendem que a mobilização não deve se limitar ao
mês de agosto.
A dimensão dos dados reforça
a necessidade de políticas permanentes de prevenção, acolhimento, proteção e
responsabilização dos agressores, além do fortalecimento da rede de atendimento
às vítimas.
“Esses números reforçam que a
violência contra a mulher continua sendo um grave problema de saúde pública e
de direitos humanos. Precisamos falar sobre violência contra a mulher durante
todo o ano. O Agosto Lilás é fundamental para dar visibilidade ao tema, mas a
prevenção, o acolhimento e a proteção precisam ser permanentes”, enfatiza
Gabriella.
A própria pesquisa do
DataSenado mostra a importância das redes de apoio. Em parte dos episódios
testemunhados por outras pessoas, não houve intervenção de quem estava
presente, o que evidencia a necessidade de ampliar a informação sobre como
identificar situações de violência e como agir de maneira segura.
Informação pode ajudar a
romper o ciclo
Os números apresentados
durante o Agosto Lilás não representam apenas estatísticas. Por trás de cada
registro existe uma mulher que pode estar vivendo uma situação de medo,
dependência, ameaça, agressão ou controle.
Nesse cenário, o acesso à
informação, à orientação jurídica e aos serviços da rede de proteção pode ser
decisivo para que a vítima consiga reconhecer a violência, buscar ajuda e
romper o ciclo de agressões.
“É preciso que a mulher saiba
que não está sozinha. Informação, acolhimento, orientação jurídica e uma rede
de proteção eficiente podem fazer a diferença para romper o ciclo da violência
e garantir uma vida com segurança e dignidade”, conclui Gabriella Comper.
Os dados nacionais reforçam,
portanto, que o enfrentamento à violência contra a mulher exige continuidade. O
Agosto Lilás amplia a visibilidade, mas a prevenção, a proteção e o acolhimento
precisam fazer parte de uma atuação permanente do poder público e de toda a
sociedade./Luiz Oss