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quarta-feira, 27 de maio de 2026

De Lençóis a Teixeira: professora e autora de "Garimpo de Lembranças" falece aos 98 anos


Escritora e professora aposentada deixa obra marcada pela memória afetiva do extremo sul da Bahia

O extremo sul da Bahia perdeu, nesta terça-feira (26/05), uma de suas vozes literárias mais sensíveis. Maria Leôncio Nascimento, professora aposentada, escritora e titular da Cadeira nº 30 da Academia Teixeirense de Letras (ATL), faleceu em sua residência, em Teixeira de Freitas, aos 98 anos.

Nos últimos tempos, a autora enfrentava dificuldades de locomoção e perda significativa da visão, mas mantinha-se ligada à escrita de forma perseverante: ditava novos textos para uma das filhas, que os transcrevia e os encaminhava à academia para publicação. Um gesto que sintetizava sua paixão pelas letras e sua resistência intelectual diante dos rigores da longevidade.

Das montanhas da Chapada ao litoral sul

Natural de Lençóis, na Chapada Diamantina, Maria Leôncio trouxe em sua escrita a marca das paisagens e das memórias sertanejas. Na década de 1950, formou-se em História e Geografia pela Universidade Federal da Bahia e dedicou três décadas ao magistério, lecionando em Salvador e Ilhéus. Nos anos 1960, a família mudou-se para o sul do estado, vivendo em Ilhéus e em áreas rurais de Caravelas, até se estabelecer definitivamente em Teixeira de Freitas – cidade que encontrou nela uma de suas mais distintas intelectuais.

Uma rara coincidência entre amor e literatura

Viúva do engenheiro civil Edward Leôncio Nascimento, responsável por obras do antigo DNER em Eunápolis e Teixeira de Freitas durante a construção da BR-101 nas décadas de 1960 e 1970, Maria Leôncio viveu uma curiosa simetria com o marido: ele é patrono da Cadeira nº 30 da ATL, exatamente aquela que ela viria a ocupar anos mais tarde. Edward foi homenageado com uma rua na cidade e tem seu nome ligado ao desenvolvimento regional.

Memória transformada em livro

A estreia literária de Maria Leôncio ocorreu em 2007, com "Garimpo de Lembranças". Três anos depois, lançou "Destino: Extremo Sul", obra em que a prosa memorialística em primeira pessoa revela sua habilidade em transformar afetos e recordações em narrativa. Em 2016, foi imortalizada na ATL, tornando-se uma das vozes femininas de maior prestígio da casa.

O presidente de honra da ATL, jornalista e poeta Almir Zarfeg, emocionou-se ao recordar a convivência. “Tive a honra de conviver com a confreira Maria Leôncio e de usufruir de boas conversas e momentos amistosos, sempre acompanhado do também saudoso Carlos Mensitieri, pelo que sou e serei muito grato.”

Maria Leôncio deixa seis filhos (uma delas já falecida), 15 netos e 14 bisnetos. O corpo está sendo velado na Igreja Presbiteriana do bairro São Lourenço. O sepultamento ocorrerá nesta quarta-feira (27/05), às 11h, no Cemitério Jardim da Saudade II, em Teixeira de Freitas.

Nos próximos dias, o presidente da ATL, Raimundo Magalhães, deverá declarar a vacância da Cadeira nº 30 e convocar a tradicional Sessão da Saudade em memória da escritora que, agora, se torna presença definitiva na história literária da região.

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