Escritora e professora aposentada deixa obra marcada
pela memória afetiva do extremo sul da Bahia
O extremo sul da Bahia perdeu,
nesta terça-feira (26/05), uma de suas vozes literárias mais sensíveis. Maria
Leôncio Nascimento, professora aposentada, escritora e titular da Cadeira nº 30
da Academia Teixeirense de Letras (ATL), faleceu em sua residência, em Teixeira
de Freitas, aos 98 anos.
Nos últimos tempos, a autora
enfrentava dificuldades de locomoção e perda significativa da visão, mas
mantinha-se ligada à escrita de forma perseverante: ditava novos textos para
uma das filhas, que os transcrevia e os encaminhava à academia para publicação.
Um gesto que sintetizava sua paixão pelas letras e sua resistência intelectual
diante dos rigores da longevidade.
Das montanhas da
Chapada ao litoral sul
Natural de Lençóis, na Chapada
Diamantina, Maria Leôncio trouxe em sua escrita a marca das paisagens e das
memórias sertanejas. Na década de 1950, formou-se em História e Geografia pela
Universidade Federal da Bahia e dedicou três décadas ao magistério, lecionando
em Salvador e Ilhéus. Nos anos 1960, a família mudou-se para o sul do estado,
vivendo em Ilhéus e em áreas rurais de Caravelas, até se estabelecer
definitivamente em Teixeira de Freitas – cidade que encontrou nela uma de suas
mais distintas intelectuais.
Uma rara coincidência
entre amor e literatura
Viúva do engenheiro civil
Edward Leôncio Nascimento, responsável por obras do antigo DNER em Eunápolis e
Teixeira de Freitas durante a construção da BR-101 nas décadas de 1960 e 1970,
Maria Leôncio viveu uma curiosa simetria com o marido: ele é patrono da Cadeira
nº 30 da ATL, exatamente aquela que ela viria a ocupar anos mais tarde. Edward
foi homenageado com uma rua na cidade e tem seu nome ligado ao desenvolvimento
regional.
Memória transformada
em livro
A estreia literária de Maria
Leôncio ocorreu em 2007, com "Garimpo de Lembranças". Três anos
depois, lançou "Destino: Extremo Sul", obra em que a prosa
memorialística em primeira pessoa revela sua habilidade em transformar afetos e
recordações em narrativa. Em 2016, foi imortalizada na ATL, tornando-se uma das
vozes femininas de maior prestígio da casa.
O presidente de honra da ATL,
jornalista e poeta Almir Zarfeg, emocionou-se ao recordar a convivência. “Tive
a honra de conviver com a confreira Maria Leôncio e de usufruir de boas
conversas e momentos amistosos, sempre acompanhado do também saudoso Carlos
Mensitieri, pelo que sou e serei muito grato.”
Maria Leôncio deixa seis
filhos (uma delas já falecida), 15 netos e 14 bisnetos. O corpo está sendo
velado na Igreja Presbiteriana do bairro São Lourenço. O sepultamento ocorrerá
nesta quarta-feira (27/05), às 11h, no Cemitério Jardim da Saudade II, em
Teixeira de Freitas.
Nos próximos dias, o presidente da ATL, Raimundo Magalhães, deverá declarar a vacância da Cadeira nº 30 e convocar a tradicional Sessão da Saudade em memória da escritora que, agora, se torna presença definitiva na história literária da região.
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