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terça-feira, 5 de maio de 2026

Médico denuncia perseguição política e diz que gestão retira profissional da saúde por “questões políticas” em Jucuruçu



Eu nasci, cresci e fui alfabetizado em Jucuruçu. Não sou um médico que passou por aqui: EU SOU DAQUI. Conheço as ruas, as famílias, os sobrenomes, as histórias que não estão em prontuário nenhum. Depois de dez anos tentando, passei em medicina numa universidade pública brasileira, e ali fiz um propósito com Deus: eu voltaria para o lugar onde cresci, onde fui alfabetizado por Tia Nilza, onde não perdia as aulas de português de Elson, Laudionor e Cida, onde estudei do Cecília ao antigo colégio ACM. 

Eu voltei não porque eu não tivesse opção, mas porque eu queria ser útil aqui. Enquanto muita gente me dizia para seguir outro caminho, fazer residência, construir vida longe de uma cidade pequena com histórico complicado, eu fiz o contrário. Voltei. Voltei para ouvir melhor, para cuidar com mais atenção, para ser resolutivo, para fazer aquilo que a gente aprende na Atenção Primária quando leva a sério: tratar gente, não número. Durante quatro anos, eu fiz isso. Eu nunca pedi voto dentro de consultório, nunca transformei paciente em eleitor, nunca misturei política com atendimento. Eu trabalhei. E, curiosamente, isso foi o suficiente para me tornar um problema. 

Não por erro, não por falta, não por desrespeito — mas por ser um médico que dava resultado e criava vínculo. Em alguns lugares, isso é mérito. Em Jucuruçu,  na gestão atual, isso é ameaça. Quando meu pai foi eleito vereador — e ainda por cima em primeiro lugar — a coisa começou a mudar. Não foi de um dia para o outro, foi um desmonte silencioso, daqueles que quem está de fora quase não percebe, mas quem está dentro sente na pele. 

Minha mãe, que estava na direção da escola por processo seletivo, anterior à eleição, foi retirada com uma justificativa que não se sustenta nem juridicamente, nem moralmente. Meu pai, legitimamente eleito, passou a ter pedidos ignorados. Eleitores que votaram em meu pai começaram a ter medo de perder emprego por terem votado nele ou precisaram de "chás de cadeira" para serem chamados de volta. E eu, que nunca fiz política dentro do consultório, virei alvo de uma política feita nas sombras.  Chegou um ponto em que eu fui conversar com o prefeito, olho no olho, em setembro de 2025.  

Perguntei: “Quais são seus planos para mim?”. Ele disse que queria que eu continuasse, que gostava do meu trabalho, que precisava de mim. Eu acreditei. Falei com ele, com respeito, sobre o que a gestão precisava melhorar: o acesso das pessoas aos exames, favoritismo, a dificuldade da população em ser ouvida pela secretaria, picuinhas sem sentido dentro do grupo político, sinais de perseguição que já começavam a aparecer, a sensação de que ele se indignou por meu pai ter sido eleito em primeiro lugar, mesmo meu pai sendo de sua base, onde apoiamos o prefeito em sua eleição e reeleição. Falei com o prefeito, assim como disse em palanque, quando subi e pedi voto para ele: Escute mais a equipe médica. Temos muito a oferecer. Só que na mente nebulosa e embriagada por ego, o prefeito deve ter achado ruim a mão estendida. 

Ele me disse que era um absurdo quem descontava em familiares de políticos o descontentamento com determinadas atitudes e que ele iria rever tudo e resolver,  que ainda dava tempo. Hoje eu entendo melhor: não era tranquilidade, era cinismo. Porque, enquanto dizia isso, já estava sendo arquitetado um dossiê para um órgão federal, mobilização jurídica e possível participação de agentes políticos.

Eu fiz a prova da AgSUS (antiga ADAPS), com intenção de estabilidade. Com minha nota, eu poderia escolher qualquer capital do Brasil, mas escolhi Jucuruçu. Claro que eu vou buscar meios jurídicos, mas a justiça é lenta, sabemos. E o prefeito preferiu movimentar uma montanha porque ele, em grosso modo, não tem medo de ter atitudes covardes. Ele me atinge no sentimento, no vínculo de 37 anos com uma comunidade (meu tempo de vida) e nos 4 anos de dedicação integral à saúde de pessoas que são meus conterrâneos. 

De pessoas que orgulhosamente falaram que me viram crescer. E nossos resultados foram ótimos, tanto humanitários quanto no diagnóstico certeiro, na identificação rápida dos problemas, em saber o que solicitar, quando solicitar, tudo com zelo, empatia, conhecimento e resolutividade. Eu não tenho medo de dizer o quanto Deus me guia em cada atendimento.

Mas, principalmente após meu pai passar a ser mais crítico à gestão e fazer o que um vereador deve fazer (fiscalizar e legislar), e não ter aprovado uma proposta de que dava décimo terceiro salário para o primeiro escalão, enquanto boa parte dos contratados estava dispensada. Vieram as medidas práticas mais arbitrárias: diminuição de plantões até minha retirada do hospital, mas okey... o hospital é municipal e o gestor determina quais médicos devem atuar. 

Regras que dificultavam o acesso da população a exames, determinações de impedimento de minha avaliação, tratamento desigual em relação a outros médicos, problemas no meu CNES que incluiu lançamentos indevidos, não pagamento do que era devido, atraso na contrapartida municipal/ajuda de custo, isolamento, comentários espalhados pela cidade — aquele tipo de coisa pequena que, somada, revela exatamente o tamanho de quem pratica. E, por fim, o pedido de transferência ao órgão federal justificado como "não estamos satisfeitos com sua permanência".  

E aqui entra a parte que dispensa interpretação: o motivo registrado foi “questões políticas”. Não é opinião, não é versão — é o que está escrito em e-mail que recebi da AgSUS. E aí eu fico pensando, com uma curiosidade quase clínica: que tipo de gestão prefere abrir mão de um médico que funciona, que conhece a população, que não está de passagem, que queria permanecer, pra descontar a raiva do pai? Ou pior, por nutrir um sentimento estranho de insatisfação quando alguém me elogiava. 

Que tipo de liderança acha razoável prejudicar o acesso da população à saúde para resolver desconfortos pessoais? Isso não é sobre mim. Nunca foi só sobre mim. Isso é sobre uma escolha. E escolhas dizem muito mais do que discursos ferozes de quem só tem coragem com microfone na mão.  Também não dá para fingir ingenuidade e achar que isso foi obra de uma pessoa só. Não foi. 

Nenhum movimento desse tamanho se faz sozinho. Existe sempre um grupo — aqueles que executam, aqueles que sugerem, aqueles que aplaudem, aqueles que se calam. Às vezes, os mais perigosos nem são os que mandam, mas os que obedecem sem questionar, os que espalham, os que distorcem, os que se prestam ao papel de “soldadinhos” de conveniência. E, sinceramente, muitos deles conseguem ser ainda piores, porque terceirizam a própria consciência em troca de migalhas de poder. 

A história, aliás, está cheia disso. Não preciso nem forçar muito a analogia: regimes autoritários nunca se sustentaram apenas por um líder, mas por uma base que normaliza o absurdo. A Bíblia também não romantiza esse tipo de situação. José foi vendido pelos próprios irmãos, não porque era fraco, mas porque incomodava. Davi foi perseguido por Saul porque sua presença expunha a insegurança do "rei". E Jesus, perfeito, ser de luz e amor, foi muito judiado. 

A filosofia ajuda a entender o resto. O ressentimento que Nietzsche descreve é exatamente isso: não é o fracasso do outro que incomoda, é o sucesso que evidencia a própria limitação. E a tal “banalidade do mal”, que a gente vê discutida em Hannah Arendt, aparece quando pessoas comuns começam a achar normal fazer o que é errado, desde que isso as beneficie ou as proteja. Ninguém precisa se ver como vilão. Basta não se ver como responsável.

Eu poderia ter jogado esse jogo. Poderia ter usado o carinho da população como moeda, poderia ter feito política dentro do consultório, poderia ter me curvado para permanecer. Não fiz. E talvez esse tenha sido o meu erro dentro dessa lógica: eu não me adaptei ao que era esperado de mim. Eu continuei sendo quem eu sempre fui. 

Também sei que houve torcida para que eu errasse. E, sendo bem honesto, hoje eu vejo até um certo livramento. Porque quando alguém quer te derrubar e não encontra motivo, às vezes o motivo aparece — mesmo que precise ser inventado. Me tirar do hospital e agora, conseguiu minha transferência de cidade, pode ter sido a forma mais “segura” de resolver o problema deles sem correr riscos maiores. Parabéns pela estratégia. 

Do ponto de vista de autoproteção, foi eficiente. Do ponto de vista ético, é indefensável. Mas tem uma coisa que precisa ficar muito clara: a gestão tirou da população de Jucuruçu o direito a ter um médico de excelência. O que eu construí não depende de cargo, de prefeitura ou de autorização política. Depende de mim. E isso ninguém tira. Para a população de Jucuruçu, o que eu tenho é apreço e respeito. 

Vocês sabem quem eu fui nesses quatro anos. Sabem como eu trabalhei, sabem como eu atendi, sabem que eu não estava de passagem. Não normalizem o que aconteceu. Conseguir minha transferência em um cargo federal... é muito ódio, amargura, pequenez. Eu vou estar bem onde eu estiver, claro que estaria melhor perto da minha avó, dos meus pais, da minha irmã, da população que amo e da equipe que se tornou minha segunda família. 

Mas sei que dificilmente haverá um trabalho de excelência como o que fizemos e esta gestão, a gestão Lili, será marcada por não permitir a continuidade de um trabalho clínico digno e que se preocupa verdadeiramente com o povo. Não aceitem que decisões políticas sejam mais importantes do que a saúde de vocês. Não esqueçam — não por mim, mas por vocês mesmos. 

E para quem acha que resolveu alguma coisa, eu só digo o seguinte: eu continuo sendo o mesmo. O mesmo que voltou por propósito, o mesmo que acredita no que faz, o mesmo que transforma dificuldade em crescimento. 

Eu sei exatamente quem me estendeu a mão e sei exatamente quem tentou me apedrejar. E eu tenho um hábito antigo: eu sempre volto melhor.  No fim das contas, quem é pequeno, asqueroso e covarde? Pois é. Diante de qualquer atitude de quem está no poder, pergunte: Essa pessoa se parece com quem? Pilatos, Judas, Herodes, Barrabás ou Jesus? E aí você saberá quem realmente tem poder. Ah, e eu posso ir para o Japão (calma que não sairei da Bahia), mas jamais sairei de Jucuruçu. 

Gestor nenhum me tira daqui. Não serei visto com frequência, claro, porque preciso trabalhar e, em breve serei realocado em outra cidade que precisem muito de mim, e, embora a gestão tenha feito o movimento de retirar um médico top das galáxias que atendia em Jucuruçu no SUS e cujo salário é pago pelo governo federal, garanto que ainda neste mês de maio, estarei com nosso trabalho social, atendendo a todos, DE GRAÇA. 

Organizaremos as agendas e tudo dará certo. Como dizia minha bisavó Ana Maria de Du: "por cima de medo, CORAGEM!"

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Rua principal de Jucuruçu - Bahia, 3 de março de 2024.

Jucuruçu - Bahia. Pedaço bom do Brasil.