Despedida de Gringo: o técnico que
ensinou que o futebol também se joga com o coração
Itanhém
amanheceu mais silenciosa nesta sexta-feira, 2 de outubro. A cidade perdeu, às
três da madrugada, no Hospital Municipal, aquele que por décadas foi muito mais
que um treinador: Gercino Soares Antunes, o Gringo, partiu aos 83 anos. Para os
mais próximos, o nome de batismo até existia nos documentos, mas no coração do
povo ele sempre foi Gringo — o zagueiro firme, o técnico apaixonado, o homem
que fez do futebol uma escola de vida.
Natural de
Almenara, no Vale do Jequitinhonha, chegou ainda jovem a Itanhém. Trazia pouca
coisa na mala, mas carregava consigo uma bola e o sonho de dias melhores. Foi
na cidade que fincou raízes, construiu família e transformou o amor pelo
esporte
Depois de
pendurar as chuteiras, assumiu o papel que considerava o mais desafiador: o de
técnico. E foi nessa função que Gringo se eternizou. Fundou o time União, mais
tarde União Ticiana, com o apoio da indústria de café local. Não criou apenas
um clube — ergueu um espaço de acolhimento, um lar para quem precisava de uma
chance. Muitos jovens de Itanhém encontraram ali o primeiro uniforme, a
primeira chuteira, o primeiro sentimento de pertencer a algo maior. Hoje, esses
mesmos jovens são homens de bem, pais de família, e trazem consigo, ainda que
sem palavras, a marca do técnico que os formou.
Foram muitas
taças, títulos regionais e tardes inesquecíveis. Mas o maior troféu de Gringo
sempre foi ver a juventude abraçar o esporte e se afastar dos caminhos errados.
Tive a honra de
vestir a camisa de um time comandado por ele. E o que mais me marcava não era a
tática, nem os papéis rabiscados na prancheta. Era o amor. Lembro de uma final:
todos já uniformizados, o vestiário em silêncio, à espera das últimas palavras
do mestre. Gringo tentou falar, mas não conseguiu. As lágrimas vieram antes.
Chorou diante de nós, tomado por uma emoção que não cabia em discurso. Álvaro
Gudim, um dos jogadores, acabou falando por ele.
Naquele momento,
entendi que nenhuma preleção seria mais poderosa. Aquele choro dizia tudo: que
ele acreditava em nós, que aquele jogo era sagrado, que futebol, para Gringo,
nunca foi só futebol. Entramos em campo com a alma inteira. E fomos campeões.
Agora, quem
chora somos nós. Chora a família, os amigos, os ex-atletas, os torcedores, o
Estádio Teixeirão. Choram os troféus e as medalhas. Talvez agora sejamos nós a
não conseguir falar, com a voz embargada, como ele naquele vestiário. Que
possamos aprender com Gringo que há dores e amores que só as lágrimas conseguem
expressar.
E, como a
literatura me permite sonhar, fecho os olhos e imagino o que se passa lá em
cima.
Vejo um portão
se abrindo. Não um portão qualquer, mas o túnel de um estádio infinito, de
grama perfeita, iluminado por uma luz que não se apaga. Imagino Deus esperando
o velho zagueiro chegar. Sem pressa, sem prancheta, apenas com um sorriso
acolhedor: “Entra, Gringo. Pode descansar. Eu vi tudo o que você fez lá
embaixo.”
Imagino a
arquibancada celeste de pé, aplaudindo. Cada adolescente que ele ajudou a
formar, cada tarde de domingo, cada lágrima de emoção — tudo se transforma
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