Aparecer

Aparecer

JUCURUÇU - BA

Siga-nos no instagram

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

"Gringo se despede: o treinador que ensinou que há vitórias que só as lágrimas sabem conquistar"

 




Despedida de Gringo: o técnico que ensinou que o futebol também se joga com o coração

Itanhém amanheceu mais silenciosa nesta sexta-feira, 2 de outubro. A cidade perdeu, às três da madrugada, no Hospital Municipal, aquele que por décadas foi muito mais que um treinador: Gercino Soares Antunes, o Gringo, partiu aos 83 anos. Para os mais próximos, o nome de batismo até existia nos documentos, mas no coração do povo ele sempre foi Gringo — o zagueiro firme, o técnico apaixonado, o homem que fez do futebol uma escola de vida.

Natural de Almenara, no Vale do Jequitinhonha, chegou ainda jovem a Itanhém. Trazia pouca coisa na mala, mas carregava consigo uma bola e o sonho de dias melhores. Foi na cidade que fincou raízes, construiu família e transformou o amor pelo esporte em legado. Como jogador, era conhecido pela postura inabalável: não recuava diante do adversário nem diante das injustiças. Dizia que o jogo se vence primeiro dentro da gente, com caráter e coragem.

Depois de pendurar as chuteiras, assumiu o papel que considerava o mais desafiador: o de técnico. E foi nessa função que Gringo se eternizou. Fundou o time União, mais tarde União Ticiana, com o apoio da indústria de café local. Não criou apenas um clube — ergueu um espaço de acolhimento, um lar para quem precisava de uma chance. Muitos jovens de Itanhém encontraram ali o primeiro uniforme, a primeira chuteira, o primeiro sentimento de pertencer a algo maior. Hoje, esses mesmos jovens são homens de bem, pais de família, e trazem consigo, ainda que sem palavras, a marca do técnico que os formou.

Foram muitas taças, títulos regionais e tardes inesquecíveis. Mas o maior troféu de Gringo sempre foi ver a juventude abraçar o esporte e se afastar dos caminhos errados.

Tive a honra de vestir a camisa de um time comandado por ele. E o que mais me marcava não era a tática, nem os papéis rabiscados na prancheta. Era o amor. Lembro de uma final: todos já uniformizados, o vestiário em silêncio, à espera das últimas palavras do mestre. Gringo tentou falar, mas não conseguiu. As lágrimas vieram antes. Chorou diante de nós, tomado por uma emoção que não cabia em discurso. Álvaro Gudim, um dos jogadores, acabou falando por ele.

Naquele momento, entendi que nenhuma preleção seria mais poderosa. Aquele choro dizia tudo: que ele acreditava em nós, que aquele jogo era sagrado, que futebol, para Gringo, nunca foi só futebol. Entramos em campo com a alma inteira. E fomos campeões.

Agora, quem chora somos nós. Chora a família, os amigos, os ex-atletas, os torcedores, o Estádio Teixeirão. Choram os troféus e as medalhas. Talvez agora sejamos nós a não conseguir falar, com a voz embargada, como ele naquele vestiário. Que possamos aprender com Gringo que há dores e amores que só as lágrimas conseguem expressar.

E, como a literatura me permite sonhar, fecho os olhos e imagino o que se passa lá em cima.

Vejo um portão se abrindo. Não um portão qualquer, mas o túnel de um estádio infinito, de grama perfeita, iluminado por uma luz que não se apaga. Imagino Deus esperando o velho zagueiro chegar. Sem pressa, sem prancheta, apenas com um sorriso acolhedor: “Entra, Gringo. Pode descansar. Eu vi tudo o que você fez lá embaixo.”

Imagino a arquibancada celeste de pé, aplaudindo. Cada adolescente que ele ajudou a formar, cada tarde de domingo, cada lágrima de emoção — tudo se transforma em coro. E vejo o Criador entregando a ele a taça que nenhum campeonato terreno poderia dar: a de ter feito o bem jogando o jogo que amava. O futebol./aguapretanews

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Rua principal de Jucuruçu - Bahia, 3 de março de 2024.

Jucuruçu - Bahia. Pedaço bom do Brasil.