Eunápolis: A ex-diretora do
Conjunto Penal de Eunápolis disse ao Ministério Público da Bahia (MP-BA) que o
ex-deputado federal Uldurico Júnior (PSDB) teve pelo menos três encontros com
traficantes no presídio. Em pelo menos uma dessas reuniões, ele teria pedido
para ela retirar as algemas dos detentos.
As declarações foram feitas
em delação premiada realizada em janeiro deste ano e assinada em fevereiro. A
reportagem obteve acesso às imagens com exclusividade.
Ao longo da colaboração,
Joneuma Silva Neres detalhou a própria atuação para facilitar a fuga de
detentos do presídio — em 12 de dezembro de 2024, 16 homens escaparam da
unidade prisional — e disse que agiu a pedido do político, com quem mantinha um
relacionamento. Segundo ela, o deputado negociou apoio na fuga por R$ 2
milhões, tendo recebido pelo menos um adiantamento de R$ 200 mil. Uldurico nega
as acusações.
Ela também relatou que ele
dizia ser cobrado por um "chefe", em referência ao ex-ministro Geddel
Vieira Lima, então correligionário de Uldurico. À época, o ex-deputado era
filiado ao MDB, partido que tem Geddel como um de seus líderes na Bahia.
Joneuma contou que Uldurico a
encaminhava mensagens atribuindo autoria ao ex-ministro. "'Uldurico, eu
pensei que ia fugir dois presos, quatro, mas me foge 16, aí você me lasca,
cara!' Tipo assim, o Geddel dando uma bronca nele", explicou durante a
delação.
Geddel, que não é investigado
no caso, negou qualquer envolvimento com o crime. "Ela diz coisas não sobre
mim, mas que ele disse para ela. No fundo, ele estava vendendo meu nome
descaradamente para acalmar ela, como se eu fosse protegê-lo. O inquérito da
polícia mostra quem recebeu o suposto dinheiro. O pai dele, outros vereadores,
com PIX, e não faz nenhuma referência a mim", disse Geddel.
Indicada por Uldurico para
comandar o presídio de Eunápolis, Joneuma foi a primeira mulher a assumir o
cargo na Bahia. Ela foi nomeada em 14 de março de 2024, iniciou no posto no dia
25 daquele mês e disse que já no dia seguinte recebeu a visita de Uldurico,
acompanhado de outras pessoas.
De acordo com ela, o
ex-deputado solicitou uma conversa com os chefes de todas as facções que ali
estavam custodiados. Ela afirmou que não acompanhou a reunião, que ocorreu a
portas fechadas, e acrescentou que Uldurico pediu para que retirasse as algemas
dos criminosos.
Depois disso, ele teria
retornado uma semana depois, em 1º de abril, para ter um novo encontro com os
mesmo criminosos e, de novo, em maio ou junho — ela não soube precisar qual o
mês desse último encontro.
Na sequência, ela disse que
Matheus da Paixão Brandão foi outras três vezes ao presídio se reunir com os
chefes do tráfico. Conforme apurado, Matheus foi secretário parlamentar de
Uldurico quando ele era deputado federal.
Segundo Joneuma, um dos
criminosos com quem Uldurico se reunia era o traficante Ednaldo Pereira Souza,
mais conhecido como Dada. Toda a fuga foi planejada com foco na saída dele.
A ex-diretora relatou que, em
14 de outubro de 2024, após ter perdido a eleição para prefeito de Teixeira de
Freitas, Uldurico compareceu à cidade de Eunápolis, pressionando-a para ter
mais contato com Dada. A intenção dele seria conseguir recursos financeiros.
De acordo com Joneuma,
Uldurico afirmou que precisava de dinheiro com urgência para prestar contas e
pagar determinadas pessoas com quem ele tinha dívidas. Foi em meio a esse
cenário que o político teria negociado a fuga com Dada.
Joneuma contou que os dois
combinaram o pagamento de R$ 2 milhões, com o adiantamento de R$ 200 mil.
Segundo ela, essa primeira parcela foi paga em espécie, com R$ 150 mil
repassados em uma caixa de sapato e entregue nas mãos do pai do ex-deputado, o
também político Uldurico Alves Pinto, e o restante em transferências via
PIX./G1